segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Semeando chuva e inovação



Provocar chuva não é propriamente uma novidade. Os primeiros registros de experiências modernas para semear nuvens ocorreram no inicio do século XX, foram consolidados na década de cinquenta e atualmente são utilizadas com certa regularidade em mais de vinte países.

Em geral o processo se baseia em pulverizar formações de nuvens com produtos químicos tais como iodeto de prata, iodeto de potássio ou acetona que induzem ou aceleram o processo de aglomeração e condensação provocando a precipitação em um local desejado. É um tema certamente polêmico, tanto pela eficácia (diferentes estudos mostram variação entre 10 e 30%) quando pelo potencial de perda de controle ou mesmo de provocar danos como enchentes ou secas em áreas vizinhas.

No Brasil o que torna este tema particularmente interessante são dois personagens de épocas distintas: Frederico de Marco (1885-1960) e Takeshi Imai (1944-2013).

Frederico de Marco foi um medico, pesquisador e inventor que viveu em Araraquara e chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel de Física. Promoveu diversos experimentos e inventos em áreas distintas como transmissão de energia sem fio, novas técnicas cirúrgicas e o conceito do telegrafo sem fio. Mas ficou conhecido mesmo por fazer chover fazer chover. Embora tenha realizado os primeiros experimentos em 1914, foi em 1940 que promoveu a primeira chuva induzida no Brasil pulverizando nuvens com iodeto de prata. A técnica criada por Frederico foi patenteada nos EUA no final da década de 40 e ele nunca se beneficiaria de seu invento. Dizia que suas invenções eram para uso universal.

Takeshi Imai, engenheiro mecânico e inventor formado no ITA ficou conhecido nacionalmente quando no inicio dos anos 70 desenvolveu um método de pulverização para controlar a ferrugem que dizimava cafezais do Brasil. Nos anos 80 desenvolveu uma série de motosserras mais rápidas e potentes do que as existentes até então. Ao ver um jacarandá de 250 anos sendo derrubado pelo seu invento resolveu mudar de rumo. Dedicou os últimos 20 anos de sua vida a tecnologias para beneficio publico. Neste período criou uma forma nova e surpreendente de semear nuvens e provocar chuva a partir da pulverização de água potável, eliminando assim o uso de produtos químicos. A empresa que criou, hoje operada pelos filhos Marjory e Ricardo, opera com regularidade na região metropolitana de São Paulo e em regiões de produção agrícola sensíveis de estados como Mato Grosso e Maranhão.

Em tempos distintos Frederico e Takeshi tinham em comum a curiosidade, a dedicação e o espírito fazedor que os permitiu estar a frente de seu tempo para criar inovações de amplo espectro e uso. Mas ambos também têm em comum o fato de serem considerados como personagens excêntricos e curiosos ao promoverem seus inventos mais ousados ao invés de reconhecidos como grandes empreendedores.

O Brasil tem dezenas de exemplos como estes de inventores e inovadores que em sua fase mais produtiva não são identificados, reconhecidos e estimulados. As vezes eles simplesmente padecem sem que seu potencial tenha frutificado, outras, quando tem oportunidade, buscam outros países para seguir seu caminho.


Precisamos estar atentos para aqueles que pensam, raciocinam e agem de forma pouco usual e ousada. Assim como as nuvens, precisamos semear os estímulos para que estes gênios criativos possam ir mais longe, aglutinando ideias, condensando conceitos e precipitando inovações de impacto para o Brasil e o mundo.

Publicado em Época Negócios em Agosto/2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Grande Plano



Definitivamente, o empreendedor sul-africano Elon Musk não veio ao mundo a passeio.

Há dez anos, nos primórdios da criação da Tesla Motors, Musk descreveu assim o seu objetivo com a empresa: “produzir um carro elétrico atraente o suficiente para conquistar os consumidores mais exigentes”. O propósito final era acelerar a transição para um mundo livre dos combustíveis fósseis que estão “nos fritando”.

Para atingir tal efeito, ele publicou o Grande Plano Secreto da Tesla — que, apesar do nome, estava consolidado num documento de duas páginas que propunha quatro metas: construir um supercarro elétrico esportivo; com o dinheiro gerado, construir um modelo mais acessível; e, com o dinheiro destes, produzir um modelo mais barato para produção em larga escala. Para completar, em paralelo, produzir opções de geração elétrica com zero emissão de carbono.

Desde então, a empresa lançou um carro esportivo de US$ 120 mil, um sedã de US$ 70 mil (considerado por muitos o melhor carro já produzido em série) e, recentemente, um novo modelo de US$ 35 mil, que, apesar da previsão de entrega no fim de 2017, já tem encomendas de mais de 500 mil unidades (inclusive no Brasil). Enquanto produzia os veículos, a empresa criou uma divisão de energia que está erguendo a maior fábrica do planeta (a primeira de uma série) para produzir baterias em grandes volumes. Por fim, acaba de incorporar a SolarCity, a maior empresa de energia solar dos EUA (da qual Musk também é o maior acionista).

Quando lançou o plano, foi muito criticado pela ambição desproporcional. Tanto por imaginar que poderia construir um carro elétrico para competir com carros convencionais, quanto por achar que poderia alterar a demanda de petróleo produzindo veículos particulares e caros.

Pois Elon acaba de lançar o seu Grande Plano — Parte II, com quatro estratégias: criar sistema de geração elétrica solar harmonicamente integrado com bateria; expandir o portfólio de veículos elétricos e autônomos para todos os segmentos, inclusive e principalmente transporte de carga (caminhões) e transporte público (ônibus); desenvolver sistema de piloto automático pelo menos dez vezes mais seguro que direção manual; e viabilizar que o carro se torne um gerador de receita quando o proprietário não está utilizando. Pelo histórico do moço, são grandes as chances de o plano dar certo.


O Brasil deveria estar de olho. O setor de transporte é uma de nossas principais fontes de emissões de gases de efeito estufa e a principal fonte de poluição do ar nas cidades. Veículos autônomos e elétricos no transporte público e de cargas podem revolucionar a mobilidade e a qualidade de vida nas cidades. Parece ficção científica, mas é bem real. Está logo ali.

Publicado em O Globo em 27.07.2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Emissões de GEE da India ultrapassam as do Brasil



Hoje foi lançado a versão indiana do SEEG, o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa que no Brasil mantido pelo Observatório do Clima desde 2013 no Brasil.

Nesta manha aqui em Nova Delhi foi lançado a primeira versão das estimativas de emissões da Índia cobrindo o período de 2007-2012. A ultima informação de inventário da Índia é de 2000 com atualizações em 2007 e 2010 e portanto este esta é uma iniciativa de enorme agregação de valor para sociedade indiana.

As emissões Indianas subiram de 1.785 Mt CO2e em 2007 para 2.302 em 2012, um aumento de 29% em 6 anos. No mesmo período as emissões no Brasil caíram 24% (de 1910 Mt para 1452 Mt). No período a India tomou o lugar do Brasil como um dos top 5 emissões do planeta. A principal fonte de emissões é a geração de energia elétrica que representa 1080 Mt, quase equivalente ao que emitimos por mudança de uso da terra em 2007. Ou seja o desmatamento na Índia é o carvão em termoelétricas.

Mas existe uma diferença enorme nas emissões per capta. Se no Brasil a emissão per capita esta no mesmo nível da média global de 7 tCO2e/hab/ano, na Índia elas não passam de 2 tCO2e/ha/ano, uma das mais baixas do planeta. Ou seja, se o mundo tiver o padrão do Brasil o limite de 2oC de aumento da temperatura média global foi para o beleléu, mas se o mundo caminhar para a média da Índia ai estaremos a meio caminho de evitar os 2oC.

outras coisas curiosas: Na india não se come carne de gado, apesar disso (ou talvez por isso mesmo) a Índia é o maior exportador de beef do mundo, especialmente de búfalo. Como o gado nativo daqui é muito menor que o gado nativo do Brasil as emissões por animal são menores e portanto mesmo tendo rebanho maior e mais velho as emissões são pouco menores que as do Brasil para pecuária. Na área florestal a realidade indiana é de pouco desmatamento e muito reflorestamento fazendo com que este setor contribua com a remoção anual de 170 Mt de CO2e.

Embora seja uma série histórica bem menor que a nossa, foi possível perceber que a intensidade de emissões não esta caindo, apesar de ser o principal componente dos compromissos da Índia no acordo de Paris. Isso tende a promover um bom e saudável debate local.

A SEEG India é chamado "GHG Plataform of India” e é formado por uma coalizão de think-tanks (ONGs) locais e foi financiado pela OAK (que tb apoia o SEEG Br). Alguns indianos assistiram nossa apresentação do SEEG na COP de Lima em dezembro de 2014 e ficaram interessados e avaliar a possibilidade de desenvolver algo similar por aqui. Em abril de 2015 viemos um time do SEEG Brasil (Marina, David, Amintas e eu) para Delhi apresentar o SEEG e conversar com as organizações locais. A partir de então o grupo de formou e trabalho para montar as estimativas em permanente contato com as equipe dos Brasil (Imaflora, IEMA, Imazon, ICLE e OC).

Para acessar a plataforma da índia em:  http://ghgplatform-india.org

Para acessar os dados da india na plataforma do SEEG acesso: http://seeg.global

terça-feira, 12 de julho de 2016

Observando do espaço


Desde o Sputinik 1 em outubro de 1957 até 2015 foram lançados ao espaço 1380 satélites, cerca de metade destinado a comunicações e um quarto dedicado a observação da terra. Os demais estão dedicados a observar o espaço e garantir o geoposicionamento na terra (é o que permite, por exemplo, o GPS do seu celular funcionar). A grande novidade é que quase a metade destes satélites foi colocada no espaço nos últimos 5 anos! Só em 2015 foram 185 satélites lançados e em 2016 deve passar de 200.

O setor que mais cresce são os satélites de observação da terra. Hoje existem mais de 350 satélites cruzando os céu (alguns ali parados sobre alguma região do planeta) e recolhendo e transmitindo dados sobre a atmosfera, a cobertura e as características físico químicas da superfície terrestre. Estes dados nos permitem desde gerar programas como Wase e Google Maps até monitorar incêndios florestais e desmatamento ou fazer a previsão do tempo.

Recentemente visitei em São Francisco a sede da Planet Labs, uma startup fundada por quatro jovens em 2010,  que colocará  em órbita a maior constelação satélites já desenvolvida. Já são mais de 65 microsatélites no espaço e até o final do ano mais 50 devem ser lançados. Quando completa, a constelação terá mais de 150 satélites que alinhados e girando em torno de um eixo que corta o polo norte e sul do planeta será capaz de gerar imagens diárias de alta resolução de todo o planeta. Os microssatélites da empresa são feitos de partes padrão que pedem ser compradas    no mercado local e custam alguns milhares de dólares, uma ínfima parte do que custa um satélite convencional que se mede na casa das dezenas de milhões.

Existe pelo menos uma dezena de startups desenvolvendo constelações de micro e nano satélites para observação da terra. Dentro de poucos anos teremos milhares de satélites em órbita observando a terra produzindo diariamente imagens em foto e vídeo de todos os cantos do planeta. Elas serão acessíveis em qualquer lugar a partir do processamento e armazenamento na nuvem nos auxiliando em centenas de tarefas tão diversas como estimar safra agrícola, monitorar áreas de desastres, rastrear frotas de veículos, prever alterações climáticas ou entender a dinâmica de uso da terra.

Alguns fatores primordiais estão viabilizando esta agenda da corrida do olhar sobre a terra desde o espaço. Cito três: o rápido barateamento das missões de lançamento, especialmente em decorrência da entrada de empresas privadas inovadoras como SpaceX em terreno antes completamente dominado por entidades governamentais e militares; a disponibilidade de materiais, sensores e câmara de alta performance e baixo custo; e a popularização do uso de mapas e serviços associados a geo localização em smartphones.

Os modelos de negocio destas novas constelações tende  a favorecer a publicação gratuita de muita informação e alta flexibilidade de acesso para os usos comerciais. Se antes uma imagem de alta resolução tinha que ser encomendada e demorava semanas ou meses para ser entregue agora é disponibilizada em horas.

O que antes era um privilégio de programas de espionagem ou “inteligência” agora será posto a serviço do bem comum. O planeta nunca mais será visto como antes.

Publicado na Coluna Bússola em Época Negócios de Julho/2016