quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Vento tem dono?


Seria cômico se não fosse trágico. O Congresso se prepara para votar uma PEC que torna os ventos bens da união e permite a cobrança de royalties pelo aproveitamento energético eólico. Obra de um deputado do Piauí, relatada por outro de Pernambuco, os ilustres representantes do povo estão de olho em um naco das receitas do setor de energia eólica, a fonte que mais cresceu em nossa matriz energética nos últimos anos.

Os argumentos do projeto de emenda constitucional são patéticos, indicando que a medida seria necessária para compensar os municípios, estado e união pelas perdas do potencial turístico e outras atividades econômicas (sem apresentar uma única evidência para tal afirmação).

O que viria depois? Cobrar dos pescadores e velejadores por usar a energia do vento para mover as embarcações? Cobrar das companhias aéreas, paraquedistas ou até quem sabe dos meninos que empinam pipa por se apoiar no vento para voar? Se congresso legisla que vento tem dono então poderia fazer o mesmo com a energia do sol. Dai o próximo passo seria cobrar dos agricultores por usar o sol para produzir alimentos, fibras e energia ou taxar cada residência que tenha aquecimento solar de água ou células fotovoltaicas.

O movimento é ainda mais absurdo quando se considera que o governo propôs - e o congresso aprovou no apagar das luzes de 2017 - um generoso pacote de centenas de bilhões de reais de renuncia fiscal para o setor petróleo e gás. Agora parece querer compensar a perda de arrecadação cobrando pelo vento.

Quando mais precisamos lutar para reduzir emissões de gases de efeito estufa o Brasil resolve ampliar o desserviço a nossa economia e a saúde do planeta ao incentivar energia fóssil e poluente e desincentivar a energia limpa e renovável.

Para nordeste quanto pior. As usinas eólicas já são a principal fonte geradora de energia da região, provendo mais da metade da demanda de eletricidade. Trás emprego, renda, investimento e segurança energética. Se ela se tornar menos competitiva podem perder espaço nos leilões de geração para termoelétrica e outros projetos em outras regiões do país. O tiro vai sair pela culatra. Vão matar a galinha dos ovos de outro.

Se é preciso aumentar a arrecadação sobre o setor de energia que o façam com uma taxa extra sobre os combustíveis fósseis (por exemplo alterando a CIDE) o que seria justificável e alinhado com o compromisso brasileiro para redução de emissões de gases de efeito estufa. Se ainda assim querem ser mais abrangentes poderia incluir um premio extra no valor da energia (de qualquer fonte) evitando reduzir a competitividade das fontes renováveis.

Se o Brasil decidir tomar posse do vento e cobrar royalties pelo seu uso seria o único país do mundo a fazê-lo. Desta jabuticaba nós definitivamente não precisamos.

Publicado em O Globo em 31.01.2018

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sem exagero



Qual destas afirmações é falsa? O Brasil é o pais com a maior proporção de energias renováveis na matriz elétrica e é o país com mais florestas no mundo. As duas são falsas. Há pelo menos 20 países que têm mais eletricidade renovável que o nosso (incluindo Noruega, Islândia e Colômbia), e a Rússia possui quase o dobro da área de florestas.

O que leva à propagação destas afirmações repetidas, inclusive por autoridades e doutores, é, via de regra, um misto de desatualização, mistura de conceitos e retirada de contexto. No caso das afirmações sobre a sustentabilidade do agronegócio brasileiro propalada pelo ministro da Agricultura, há uma mistura oportunista destes vícios.

O ministro diz que o Brasil é uma das maiores potências agrícolas do planeta, ocupando apenas 7,6% do território, enquanto a média do mundo é 30% e da Europa, 45%. A agropecuária brasileira seria, assim, um ponto fora da curva de produtividade e não deveria ser demonizada pelo desmatamento; afinal, o Brasil tem 66% do território com vegetação nativa.

O agronegócio brasileiro é, sem sombra de dúvida, uma potência, o quarto maior produtor de alimentos do planeta e o maior entre os países tropicais. Para isso, o país ocupa 33% do território com atividade agropecuária, e não 7,6%, que correspondem apenas à área de cultivos agrícolas, sem contar a pecuária. Nos estados de ocupação consolidada, o percentual é ainda mais alto: São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Paraná, por exemplo, têm mais de 65% do território com uso agropecuário. Mesmo Mato Grosso, ainda na fronteira agrícola, já alcança 37% de ocupação.

No Brasil, temos mais de 280 milhões de hectares dedicados ao setor agropecuário. Somente a China e os EUA (o primeiro e o terceiro maiores produtores de alimento) possuem áreas maiores de agropecuária (mas também têm território maior que o do Brasil). Mais interessante é o caso da Índia, com uma população seis vezes maior e metade do território do Brasil — o segundo maior produtor mundial de alimentos —, que ocupa apenas 170 milhões de hectares com atividade agropecuária, ou seja, é muito mais produtiva do que nós.

Mesmo depois de reduzir as taxas históricas de desmatamento, o Brasil ainda é o país que mais desmata vegetação nativa no mundo, e mais de 80% deste desmatamento são causados pela expansão agropecuária. A atividade acaba, assim, por responder por mais de 70% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil — que é o sexto maior emissor do planeta.

Como também já disse o ministro da Agricultura, não precisamos desmatar mais um hectare para aumentar nossa produção agropecuária. Nosso desafio é melhorar a eficiência no uso das terras já dedicadas à atividade, em especial as áreas de pecuária de baixa produtividade. Com isso, poderíamos zerar o desmatamento, aumentar a renda do produtor rural e tornar o Brasil uma bomba de remoção de carbono na atmosfera.

Seria interessante o ministro assumir o compromisso e garantir junto ao setor o desmatamento zero da vegetação nativa remanescente no Brasil. Este seria, sim, o maior ato de promoção do agronegócio brasileiro. Sem nenhum exagero.

Publicado em O Globo 27.12.2017

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Eletrizante



Imagine que existisse um veículo que, silenciosamente, acelerasse de 0 a 100 em menos de dois segundos e que rodasse mil quilômetros com uma parada no posto. E que tal um caminhão de 30 toneladas que acelerasse de 0 a 100 em 20 segundos com autonomia de 800 quilômetros, sem barulho, sem fumaça saindo do escapamento e com custo de frete menor que o dos veículos atuais?

Não precisa mais imaginar. Estes veículos já existem e, dentro em breve, estarão nas ruas. Serão produzidos pela Tesla, talvez um dos principais símbolos da revolução da eletrificação em curso na área de energia e transportes que se alastra pelo mundo e que se consolidou como irreversível em 2017.

Este ano, pela primeira vez ultrapassamos a marca de um milhão de veículos elétricos vendidos em 12 meses, dobrando o número de veículos vendidos em 2015. Várias montadoras anunciaram planos para parar de fabricar veículos a combustão, e países como China (30% do mercado global), Índia e Noruega anunciaram a intenção de proibir a venda de veículos a combustão até 2030.

O que antes parecia um fenômeno restrito a um nicho para veículos de passeio se espraiou rapidamente para vários seguimentos do transporte. Em Shenzhen, uma cidade de 11,5 milhões de habitantes na China, toda a frota de quase 15 mil ônibus no transporte público será convertida para veículos totalmente elétricos até o fim deste ano.

Na Noruega, onde mais da metade dos carros vendidos em 2017 é elétrica, empresas de transporte marítimo já operam com balsa e barcos de passageiro elétricos e projetam e constroem os primeiros transatlânticos elétricos com células de combustível de hidrogênio gerado a partir de energia eólica offshore e água do mar. A previsão é de forte redução dos custos de navegação ao longo dos próximos anos com base nessas tecnologias.
Isso é a economia de baixo carbono na veia. É para onde o mundo andará. A eletrificação está para o setor de energia e transportes como o smartphone está para a comunicação.

Enquanto isso, no Brasil se discute um novo regime de incentivos ao setor automotivo baseado em melhorias incrementais para a tecnologia atual visando a possíveis ganhos de eficiência. E nem estes ganhos são visíveis. Um Fiat 147 na década de 80 fazia os mesmos 10-15 quilômetros por litro que faz hoje o carro popular mais econômico. Na média, o km/litro do carros veículos hoje no mercado caiu, em vez de aumentar, pois os pequenos ganhos de eficiência nos motores foram neutralizados pelo aumento no tamanho e peso dos veículos.

Para completar o governo edita uma medida provisória para subsidiar exploração de petróleo. 

Temos que sair deste atraso se não quisermos mais uma vez ficar a reboque da história.

Publicado em O Globo, em 29.11.2017

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

É Fogo


Estava lá, na capa do site da NASA, em meio a imagens de satélite indicando onde estão os focos de incêndios florestais que devastam o mundo, a imagem chocante da Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) ardendo em chamas. Cerda de 20% do parque já foi atingido, uma área equivalente a 35 mil campos de futebol.

De janeiro a outubro o Monitoramento INPE contabilizou mais de 200 mil focos de fogo e queimadas no Brasil, o maio numero desde o inicio do monitoramento a vinte anos atrás. Metade dos focos estão na Amazônia. A área afetada pode superar os 10 milhões de hectares, ou mais de duas vezes o estado do Rio de Janeiro.

Na América do Sul, também caminha para bater o recorde de queimadas de 2004 quando chegaram a 441 mil focos de calor em um ano. Os incêndios florestais avançam sem trégua nos EUA, Rússia, Canadá, todo o sul da Europa, África central, Austrália e Indonésia.

Nas ultimas décadas a incidência, abrangência e intensidade dos incêndios florestais esta aumentando ao redor do mundo e com ele a perda de vidas de pessoas cercadas pelo fogo, a destruição de residências, prédios e infraestrutura a além do impacto na biodiversidade e os problemas de saúde associados a fumaça. Os níveis de poluição do ar medidos na Amazônia na época de incêndios são piores do que São Paulo.

Por mais que possam ser caraterizados como desastres naturais (em inglês são chamados de wildfire), o aumento dos incêndios tem grande responsabilidade humana

No Brasil, o desmatamento – muitas vezes seguido de queimadas para preparar o solo para plantio – e a exploração madeireira sem manejo causam a degradação da floresta reduzem a evapotranspiração da floresta tornando o ambiente mais seco e mais propício ao fogo. Por outro lado, o desmatamento e as queimadas emitem bilhões de toneladas de carbono na atmosfera agravando o aquecimento global e por sua vez aumenta o risco de incêndios.

Na indonésia a conversão de florestas em solos turfosos com mais de 10 metros de material orgânico no solo para plantio de dendê propicia incêndios que duram meses e fizeram com que o país emitisse mais carbono que os EUA em 2016.

No Canadá a morte de milhares de árvores acontece pela infestação do besouro do pinheiro (Pine Beatle) que se tornou uma praga com a redução da temperatura no inverno devido as mudanças climáticas. As arvores mortas são combustíveis para o fogo se alastrar turbinados pelas altas temperaturas.

O ano de 2017 tem dado uma amostra dos impactos alarmantes que se espera das mudanças climáticas. É urgente nos prepararmos para enfrentar esta realidade. No Brasil o primeiro passo é zerar de uma vez por todas o desmatamento e a degradação florestal e promover a restauração das áreas críticas. Assim reduziremos o combustível para o fogo (tanto pela redução de emissões como pelo ambiente menos seco) e aumentaremos a formação de nuvens e as chuvas tão fundamentais para nossa agricultura e nossa saúde.

Publicado em O Globo, Edição de 25.10.2017

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Entrevista Show na Noticia da CBN 23.09.2017

Segundo os autores da pesquisa, limitar a temperatura da Terra em níveis seguros exigirá cortes de emissão anuais sistemáticos 'sem precedentes na história'. A conclusão é de uma nova análise dos modelos climáticos globais feita por um grupo internacional de cientistas liderado por Richard Millar, da Universidade de Exeter, no Reino Unido. O artigo científico descrevendo o trabalho foi publicado nesta segunda-feira no site do periódico 'Nature Geoscience'. Tasso Azevedo, coordenador de emissões do Observatório do Clima, comenta a pesquisa.

http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/123231/estudo-sugere-que-centro-da-meta-climatica-nao-e-f.htm

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Propósito




Margarete havia trabalhado por duas décadas como secretaria-executiva da diretoria de uma grande indústria de bebidas quando se tornou a primeira funcionária de uma ONG que eu ajudara a fundar, em Piracicaba, para promover a sustentabilidade da produção florestal e agrícola. Seu profissionalismo e seriedade no trato das tarefas eram realçados pelo jeitão meio mandão, mas sempre simpático e alegre. 

Um dia lhe perguntei que diferença fazia trabalhar numa grande empresa e no instituto, e ela me explicou:

— O trabalho aqui é bem parecido com o que eu fazia na empresa, só que trabalhamos em dobro e recebemos menos.

Antes que eu reagisse, ela completou: — Mas aqui sou muito mais feliz porque tenho um senso de propósito, sei que estamos contribuindo para um mundo melhor. 
Várias pesquisas têm mostrado que o senso de propósito, visto como a percepção de estar contribuindo para um bem maior do que a si próprio, é o principal motivador para pessoas, equipes e instituições se moverem, se inspirarem e se encorajarem a superar obstáculos, inovar e romper barreiras. 

Ainda assim, milhões de trabalhadores, empreendedores, empresas e governantes vagam sem rumo e sem significado pelo seu dia a dia, como que entorpecidos pela rotina e a sobrevivência diárias. Acabam sendo absorvidos pelo tédio de mais um relatório inútil, as distrações da telinha do celular ou a gestão da ansiedade da espera pelo próximo e-mail ou mensagem no WhatsApp. 

Pois bem, tá sem propósito? Conheça os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Acordados há cinco anos entre todas as nações do mundo, formam uma agenda universal para as pessoas e o planeta. São 17 objetivos, que incluem os cuidados com a biodiversidade, os oceanos, as florestas, a água, o solo e o clima, o fim da fome, da pobreza, da corrupção e do preconceito, a garantia de saúde, segurança energética e alimentar e colocar ao alcance de todos a paz, a justiça e a igualdade de oportunidades.

Cada objetivo vem acompanhado de um conjunto de metas bem estruturadas, muitas bem objetivas como, por exemplo, até 2030, erradicar a pobreza extrema para todos em todos os lugares — atualmente tendo como referência pessoas vivendo com menos de US$1,25 por dia.

Os ODS representam um cardápio de opções para inspirar cidadãos, empresas e governos a encontrar o seu propósito e sua razão de ser, estar e fazer. Quando mais forças se alinharem por propósito mais rápido, mais consistentemente caminharemos para um mundo mais próspero, justo e sustentável.

Publicado em O Globo em 27.09.2017